Quem anda pelas ruas, quem frequenta bancos, quem observa as praças e hospitais, quem conhece cidades pequenas do interior sabe que a pessoa idosa circula, mesmo com dificuldades, seus cabelos prateados. Pelo jeito de ser e caminhar são os que se sobressaem.

Alguns andam desalinhados, outros conseguem se arrumar como nos velhos tempos. Alguns andam curvados, outros ainda se aprumam. Mas atente que nas cidades eles estão, muitas vezes, dormindo ao relento. E nos rincões muitas vezes estão em casa, fechados. Outros tantos estão acamados. Não são vistos. São invisíveis. Vistos ou não, as pessoas existem e são cada vez mais.

O sociólogo Paulo Baía, em elucidativo, artigo nos que diz:

“Há uma transformação silenciosa em curso no Brasil. Não se anuncia com estridência, não ocupa manchetes diárias, não se converte em espetáculo. Mas avança com a consistência das marés, com a força inevitável da demografia, com a densidade histórica de quem acumulou décadas de experiência. O país envelheceu. E, mais importante, o eleitorado envelheceu.”

Sua análise como a minha se baseia em pesquisa da Nexus deste ano.

Vamos tratar da demografia convertida em política.

Pulamos para mais de 36 milhões de eleitores. Quase um quarto do eleitorado carrega o Tempo e a Metamorfose da vida no corpo e na memória.

As pessoas idosas não estão ao lado, num estreito espaço da estatística eleitoral. Estão no centro.

Se os jovens estão tristes e até indecisos pelo excesso de escolhas, a pessoa idosa consciente sabe de sua finitude e aprendeu que na vida é preciso tomar decisões.

Algumas pessoas idosas acima de 70 anos por falta de estímulos se acomodam e decidem não votar. 

16,5 milhões com 70 anos ou mais têm seu voto facultativo. Isso significa que 45,5% das pessoas idosas já estão fora da obrigação formal de comparecer às urnas.

Vendo e analisando este caso, a Associação Movimento Sociedade sem Idadismo lançou um Manifesto em conjunto com o Coletivo Metamorfose da vida, onde se lê:

Não queremos, jovens e pessoas idosas, sermos vistos apenas como dedos que apertam números nas urnas. Somos cidadãos plenos de dignidade e merecedores de que o Estado, nas suas múltiplas instâncias e poderes, olhe para nós e nos proporcione o exercício dos direitos fundamentais previstos na Constituição.”

Não bastasse isto, vimos que nas eleições de 2022, a abstenção foi de 20,9%. Entre os idosos, a média foi de 34,5%. 

Entre 70 anos ou mais, chegou a 58,9%. Seriam, hoje, 21 milhões a não votar. E isto não pode ficar assim. Para a democracia faz uma grande diferença.

Por isso, a necessidade de compromissos. As pessoas idosas terão que enxergar neste ano candidatos(as) compromissados(as) com a sua existência.

A ideia é que este Manifesto chegue aos candidatos. 

No entanto, poucos são os parlamentares, poucas são as administrações locais, que têm alguma política para esta população crescente.

Segundo o analista citado, o mesmo grupo social abriga, simultaneamente, a disciplina cívica e o afastamento eleitoral.

O núcleo dos 60 a 69 anos ainda tem uma ética do voto. Um compromisso que não se dissolve. Um gesto repetido não por hábito mecânico, mas por compreensão do valor da escolha.

Dali em diante cresce aos poucos, mas ainda lentamente.

No próximo pleito, esta gigantesca “reserva eleitoral” terá que ser motivada a votar. Muitos têm plenas condições de se locomover, sair e votar porque sabem o que está acontecendo no país. Logo, esta participação é cidadã. A ausência tem que ser tornar presença.

E os maiores contingentes destas pessoas idosas estão nos estados mais populosos.

Segundo nossos estudos e nossas observações, o jovem é levado por turbilhões de múltiplas questões, as pessoas com mais idade têm outra cadência. Leem mais e com mais atenção. Tem condições de comparar.

É um absurdo as leituras rasas e ligeiras sobre a metamorfose da vida, do envelhecer.  Do ponto de vista psicológico, o envelhecimento reorganiza a percepção. Não elimina a capacidade crítica. Em muitos casos, a aprofunda. Há mais prudência, mais cautela, mais resistência a simplificações.

Nisto esta população até se diferencia do senso comum.

Como nos diz Paulo Baía, sociologicamente, estamos diante de um grupo que acumula capital simbólico. Experiência. Memória. Vivência institucional. Capacidade de comparação entre ciclos históricos.

Aí vem a pergunta, como o político tradicional, os governantes não enxergam o que está “na sua cara”?

O eleitor idoso é múltiplo.

É contraditório.

É exigente.

É decisivo.

Como não se ouviram neste início de campanha vozes que venham a valorizar este voto?

Esperamos que o Manifesto Por um olhar nas eleições possa ser um elemento a mais na necessária caldeira de ideias e debates previamente ao processo eleitoral deste ano.

Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

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