
De repente o mundo tão firme, cambaleia e a cabeça gira sem sentido. Labirinto, talvez. Ouço o diagnóstico da emergência e penso que sim, que é num labirinto que me sinto tantas vezes, sem atinar para as saídas. Às vezes parecem logo ali, eu na saída, iluminada. Outras, sinto uma tateante jornada em lugar nenhum. Vida, dirão muitos.
É assim desde sempre. Não me queixo. Sou em tudo privilegiada pela vida. Família, saúde, otimismo de ver o mundo, teimosia nas horas difíceis. Inquieta, buscante, curiosa. Pragmática, diplomata, gentil. Confusa, irritadiça, impaciente para demoras e burrices. A cabeça ainda um porongo. Os passos um pouco mais firmes. Este labirinto parece fácil de enfrentar. Já os outros, quem sabe.
Talvez o susto que sentimos com o corpo seja apenas a forma mais honesta que a vida encontra de interromper nossas falsas linhas retas. Quando jovens temos mais certezas, acreditamos muito nos mapas organizados, na ideia de que esforço produz direção. Depois, paulatinamente, os anos vão nos mostrando corredores estreitos, desvios absurdos, portas que desembocam em paredes. E ainda assim seguimos. Não porque entendemos o caminho, mas porque o corpo insiste em caminhar mesmo quando a cabeça aparentemente perdeu o desenho da saída.
Envelhecer tem algo de arquitetura mal resolvida.
A cidade inteira parece construída para quem corre, para quem enxerga placas pequenas, sobe degraus sem pensar, atravessa ruas calculadas por arquitetos e engenheiros que nunca se preocuparam com o peso dos próprios joelhos. Há uma discreta violência nisso. Uma crueldade tão incorporada ao cotidiano que quase ninguém percebe mais. A pessoa idosa que espera mais tempo para o sinal abrir do que o tempo que o sinal concede para atravessar. As calçadas quebradas. O banco arrancado da praça porque descansar virou suspeita. Há até um termo para designar o que é intenção e não apenas descaso: Arquitetura hostil. Prática bem comum, hoje já objeto de lei que a proíbe.
O corpo envelhece, mas a cidade envelhece pior.
Às vezes penso que vivemos cercados por labirintos desenhados por gente que jamais precisou habitá-los. Sistemas públicos que cansam antes de acolher. Filas. Burocracias. Aplicativos impossíveis para mãos trêmulas e mentes acostumadas ao pensar analógico. E complicados até mesmo para quem domina a tecnologia. A nossa obsessão contemporânea pela pressa, como se ser lento fosse algum tipo de falha moral.
Há algo profundamente desumano numa sociedade que tolera tecnologia para tudo e não consegue garantir uma travessia segura para alguém de oitenta anos. Ou mesmo para alguém mais jovem com problemas de mobilidade. Ou para uma mãe com carrinho de bebê.
E no entanto existe beleza.
Não aquela beleza de campanha publicitária do “envelhecer bem”, sempre maquiada, branca, rica e sorridente. Aquele envelhecer vendido como “economia prateada” que embute uma não tão velada noção de que enevlhecer bem é se manter jovem eternamente.
Mas existe outra beleza, menos panfletada. A beleza de quem aprende a reconhecer os próprios limites sem transformar isso em derrota. A beleza de perceber que certas urgências eram inúteis. A de entender que maturidade não traz respostas grandiosas. Traz talvez melhores perguntas. Algumas silenciosas. Outras dúvidas que a busca nunca termina.
Talvez os labirintos mais difíceis não sejam aqueles em que estamos perdidos, mas os que fingimos dominar. Relações sustentadas por hábito. Cidades vendidas como progresso enquanto expulsam os mais frágeis. Famílias inteiras incapazes de falar sobre velhice sem cair no medo ou na negação. A velhice assusta porque ela desmonta a fantasia da autonomia absoluta. Dependemos uns dos outros desde o início. Apenas passamos décadas fingindo independência.
Volto ao giro na cabeça. À emergência. Ao corpo avisando que também possui sua linguagem própria. Há uma humildade inevitável quando o chão parece mover-se sob os nossos pés. O mundo desacelera na marra. As prioridades mudam de lugar. E naquele instante estranho, entre o medo e a sensação de insegurança, percebo que talvez a vida inteira tenha sido isso: aprender a caminhar em corredores incertos sem endurecer demais o coração, mantendo o bom humor.
Os passos agora estão um pouco mais firmes. Mas o labirinto continua. Talvez sempre continue. Mas já não procuro apenas a saída.
Quero continuar pensando sobre quem desenhou os muros, quem ficou preso neles e quem lucra com tanta gente perdida. E principalmente, entendendo o valor da construção mais importante da vida: a teia de relacionamentos que trocam ajuda e afetos. E nos amparam no desenrolar dos fios de Ariadne.

Que linda crônica! Os labirintos da vida estão relacionados de forma sensível com aspectos da vida urbana e envelhecimento! Parabéeennss…