Mal ousava respirar temendo avivar a chama, no entanto, respirava profundamente, profundamente.” 

Bliss/Felicidade, de Catherine Mansfield

O dia 20 de março é lembrado como o Dia Internacional da Felicidade.

Mas, afinal, o que é “felicidade”?

Para Aristóteles, ela depende de nós e é alcançada por meio da virtude, da razão e da auto realização — e não pelo sucesso ou pelo poder. 

Em tempos da modernidade líquida, das telas, seria o contrário: pela fama, pelo sucesso, pelo poder, talvez o poder de engajamento, em “likes”, seguidores, sejam eles quem forem.

Onde foram parar a virtude, a razão e a autorrealização? Perdidos no passado para a maior parte da Humanidade.

Já para Immanuel Kant, a felicidade não é um desejo ou uma escolha, mas um dever. 

É dever ser feliz? Devemos ser felizes? Conseguimos esta façanha? Por que há tanta gente infeliz, triste, solitária, em depressão?

Tanta gente sorri nas selfies, porém sua alma é vazia. Sua vida é uma tristeza.

Para Henry David Thoreau, a felicidade está em viver de forma deliberada. Para ele, simplificando a existência para focar no essencial, na natureza e no autoconhecimento. Ele acreditava que a verdadeira felicidade não é perseguida, mas surge ao viver autenticamente, muitas vezes compartilhada e cultivada em simplicidade, libertando-se do supérfluo. Num mundo consumerista, tudo que a Mercado Livre, a Shopee ou a Amazon ofertam, num clique o produto vem às nossas mãos, mesmo enterrados em casa, sem sol, sem amigos, sem lazer, sem vida.

Nós temos um brilhante exemplo no país a seguir: Ariano Suassuna. Ele nos ensina que “a tarefa de viver é dura, mas fascinante”. Nunca foi a Disney.

Viver é fascinante. Mas é duro ouvir ou ler o dia todo “redes” falarem ou escreverem “influenciadora” X ou “influenciador “Y” fez isso ou aquilo. Umas e uns “ninguéns” para mim e àqueles(as) que tem um pingo de sensatez e gosto pela vida. Temos mil formas de aproveitar bem nossas vidas.

E se optarmos por Caio Fernando Abreu será melhor ainda: “se algumas pessoas se afastarem de você, não fique triste, isso é resposta da oração: “livrai-me de todo mal, amém”. Livre-se dos tóxicos.

Eu rio e sou feliz ouvindo os papos do Suassuna. E você?

De acordo com Relatório Mundial da Felicidade de 2026, a fase inicial da vida adulta — antes considerada uma das mais felizes da vida — teve uma “virada preocupante”. Os jovens da Europa Ocidental e da América do Norte relatam “a menor sensação de bem-estar entre todas as faixas etárias”, afirma este relatório.

Os problemas são, entre outros, mudanças climáticas, guerras, desemprego, inflação e solidão crescente. 

Em Nova York, os jovens substituíram as festas pelos protestos. Opa, voltamos ao “maio de 68”? Não, cremos que não.

Protestam para ver se suas condições de vida melhorem. Não tem foco em liberdades democráticas, costumes, ditaduras e governos autoritários como há 50 ou 60 anos atrás.

A solidão, jovens nos quartos desarrumados, camas jamais feitas, refeições tragadas ali com a tela ligada, nunca fazem refeições em coletividade ou grupo. E comem “fast food” ou “comida lixo”, coisas que vão causar males no futuro, sem o SUS que nós felizes brasileiros temos.

A GERAÇÃO BABY BOOMERS

Alguns chegaram a pegar resquícios de 68, Woodstock, luta contra a ditadura no Brasil, filhos interioranos que foram desbravar as capitais, jovens que saíam de casa, para morar com amigos e colegas em “repúblicas”, com seu fogão de duas bocas, uma Frigidaire e um sofá no chão.

Havia uma atitude tribal, de proteção, de ajuda, de dividir as coisas. Havia um pouco de Thoreau no sangue. Um pouco de kantiano, pois viver na boa e feliz era um dever.

A psicóloga gaúcha Grace Gomes no artigo “No meu tempo”, no site do  “Coletivo Metamorfose da vida”, ousou botar o dedo na ferida ao dizer:

“No meu tempo, as coisas não eram assim…”

“Realmente, nas décadas de 60/70, as crianças eram tratadas de forma diferente. E isto, com certeza, formou adultos mais resilientes, jovens arrojados e combativos. Saíam cedo de casa, seja para fazer faculdade, alojada em casas de estudantes, seja por casamentos ou por rebeldia mesmo.

“Se a família não tivesse as melhores condições financeiras, muitos trabalhavam e estudavam, com perseverança e determinação.

“Pergunto-me: “o que mudou? Por que hoje jovens vivem até os 30 anos em casa junto com seus pais?” Podemos mencionar inúmeros exemplos em que, ao concluírem a faculdade, prorrogam a entrada no mercado de trabalho com cursos de especialização, mestrados, doutorados e intercâmbio.”

Questão posta com firmeza e clareza.

O que fazem as autoridades? Os parlamentares? Bem, estes estão distribuindo uma folha de papel, fazendo fotos e dizendo de quanto foi a Emenda Impositiva que deram (deram?) a este ou aquele local.

A GERAÇÃO Z

Não restam dúvidas que nossa geração, os que temos de 60 a 80, é bem mais descolada, matreira, progressista, libertária do que a Geração Z.

A nossa geração é pai/mãe, avô/avó dos que vieram depois. Não teria havido mimo demais para eles?  Facilidades demais? Coisas que nós os mais velhos não tivemos.

Mas falar que a Geração Z é “nem-nem” é por outro lado um exagero, pois os pobres não tem outra saída que não buscar trabalho.

Aqueles desta geração cujos pais têm condições econômicas, que bancam suas vidas, podem fazer opções. Diante de opções de trabalho pouco atrativas podem ficar sem fazer nada. Na casa dos pais.

Mas o que dizer de parte desta geração que acha que o capitalismo (que nossa geração abominava e abomina) é bom? E o que dizer dos jovens que vão às missas e cultos e que tem o cristianismo de resultados como a opção de vida, a filosofia do ser e do fazer?

VELHOS TRISTES?

A coisa mais fácil de achar na Internet são fotos de pessoas idosas tristes.  Por que será?

Estudos indicam alta prevalência de tristeza e sintomas depressivos em idosos, frequentemente subdiagnosticados por serem confundidos com o envelhecimento natural.

Que estudos são estes? Em geral se remetem à Sociedade Brasileira de Gerontologia.

Sem ser um especialista, mas um atento pesquisador do tema, vejo pouca consistência nos dados.

O que se nota na sociedade em todas as classes sociais é o alto grau de isolamento destas pessoas. Temos casos e casos de esquecimento de familiares, a começar pelos filhos. 

Leio que pesquisas mostram que 15% dos idosos relatam solidão e falta de prazer, mas poucos recebem tratamento adequado. A depressão na velhice manifesta-se mais como apatia, irritabilidade e queixas físicas. Ou seja, o índice parece não ser alarmante, e quando se fala em apatia, irritabilidade e queixas físicas estamos chegando perto do problema.

Existe, na verdade, um estereótipo enraizado sobre pessoas idosas: mal-humoradas, rígidas ou desatualizadas. No entanto, a psicologia vem acumulando evidências, que apontam justamente na direção oposta. Uma entidade de aposentados ativa traz os “velhos” a se letrar digitalmente, fazendo inclusão.

O envelhecimento não é apenas um processo biológico de desgaste, mas também um processo de refinamento psicológico.

JOVENS TRISTES

 uma pesquisa chamada PENSE feita pelo IBGE que é alarmante. Os dados são de 2024.

Ideação de autolesão: 43,4% das meninas relataram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses (entre os meninos, 20,5%).

Desamparo: 33% afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas.

Desesperança: 25% dizem acreditar que a vida não vale a pena ser vivida (entre os meninos, 12%).

Ansiedade e humor: 61,0% relatam preocupação excessiva com o cotidiano, e 58,1% dizem sentir irritabilidade ou mau humor com frequência.

Enquanto a saúde mental de jovens entre 18 e 24 anos apresenta sinais de piora, a de pessoas acima de 65 anos se mantém relativamente estável. Um dos fatores que explicam esse cenário é a chamada resiliência relacional.

Pessoas com mais de 70 anos apresentam níveis mais elevados de autoestima social, tanto antes quanto após a pandemia, quando comparadas à Geração Z. Isso indica uma autoimagem mais sólida e menor dependência de validação externa.

Estes dados se comparados nos devem causar preocupações. E mais uma vez temos que nos remeter às autoridades públicas e nos perguntar: o que está sendo feito?

Enquanto esperamos, vamos ao velho Flaubert: 

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.”

E O FUTURO?

Depois de ler “A ilha dos Anciãos”, de estudar as chamadas Zonas Azuis, os centenários pelo mundo, bem como a longevidade em geral, acredito que mesmo com limitações nossa geração envelhece bem, apesar dos olhares esquisitos e geralmente errôneos dos filhos. Tem Previdência ainda, tem o SUS. Entre os orientais sempre têm a família, os filhos.

Já não tenho as mesmas certezas de como será a velhice da geração Z, corcunda, olhando para as telas, gastando sua visão, comendo comida não saudável, nos isolamentos, tão disfuncionais para quem quer viver mais e melhor. Como caminhará esta geração que não se movimenta?

Voltemos aos centenários da Sardenha: “a vida é longa se você a sabe aproveitar”.

Trabalho, família, amigos, rir, brincar como criança, tomar vinho moderadamente, cuidar com a comida.

Infelizmente, algumas coisas dessas devem arrepiar os jovens de agora.

Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

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