
Tenho ido a velórios com mais frequência do que gostaria. Mas quem, em sã consciência, gostaria de ir a velórios?
Antigamente havia uma profissão chamada carpideira — ou pranteadeira — uma prática milenar em que mulheres eram contratadas para chorar nos funerais. Quanto mais ilustre o falecido, maior o número de carpideiras lamentando sua partida.
O que não é o meu caso. Afinal, esta profissão foi extinta há muitos anos, principalmente pela artificialidade do gesto: chorar e lamentar a morte de um desconhecido.
Mas voltemos à minha realidade.
Hoje, faltando três anos para eu completar setenta, percebo-me sendo convidada a comparecer a cerimônias fúnebres de familiares de amigos, despedidas de ex-colegas, antigos conhecidos ou familiares de pacientes.
Muitas vezes compareço à cerimônia, presto minha solidariedade e, tão logo surja uma oportunidade discreta, deixo o cemitério. Saio sempre pensativa, embora nem sempre profundamente comovida.
Em outras ocasiões, no entanto, a comoção me atravessa violentamente — seja pela brutalidade da morte, seja pela progressividade abrupta do adoecimento, ou ainda por descobrir tarde demais que aquela pessoa já vinha sofrendo há tanto tempo.
Existe também uma certa culpa quando se trata de amigos ou ex-colegas: a sensação de não ter acompanhado mais de perto aquele momento doloroso.
No entanto, o que mais me impacta — e realmente me intriga — é pensar na minha própria morte.
Normalmente fico imaginando com que roupa estaria vestida. Quais flores seriam colocadas sobre o caixão. Chego até a tentar selecionar a playlist das músicas que tocariam na cerimônia final.
E o pior — ou talvez o auge do delírio tétrico — é imaginar quem iria ao meu velório. Será que meus filhos conseguiriam avisar todos os meus afetos?
Estaria a capela mortuária cheia de pessoas conversando baixinho, recordando quem eu fui? Ou estaria ocupada apenas pelos mais próximos, silenciosos, cansados e enlutados, manifestando pesar por minha partida — quem sabe precoce?
Então, durante esses delírios lúgubres, chego a planejar um ensaio de velório. Isso, inclusive, já foi tema de filmes: pessoas convidadas para participar de atos fúnebres em memória de alguém que, paradoxalmente, continua vivo, assistindo presencialmente às homenagens, às lágrimas e às condolências.
Tal pretensão não elimina a possibilidade de que, na passagem desta para outra dimensão, as pessoas talvez nem consigam acompanhar seus atos fúnebres. Mas, na dúvida, sinceramente, eu gostaria de assistir.
Sei que esse momento é muito importante para a família. O apoio, a presença e a atenção dos amigos no instante derradeiro de um ente querido ajudam a sustentar o insuportável. E talvez o mais reconfortante seja perceber quantas pessoas realmente se importavam.
Por outro lado, reconheço nessas ideias um último gesto de controle sobre familiares e amigos — como se ainda fosse necessária alguma confirmação tardia de carinho, importância e pertencimento.
Mas, sinceramente, não gostaria de uma cerimônia fúnebre vazia.
As pessoas não precisariam representar o papel das carpideiras. Não precisariam permanecer chorando o tempo inteiro. Pelo contrário: gostaria de emoções positivas, lembranças afetuosas e até algumas risadas discretas recordando tudo o que vivi e aprontei.
Lá vem o controle novamente.
Essas ideias lúgubres, de certa forma, afastam a ansiedade sobre quanto tempo de vida ainda me resta. Também me ajudam a elaborar o fato de que, se sessenta e sete anos passaram tão rapidamente, então — na melhor das hipóteses — mais vinte ou trinta anos precisarão ser vividos com intensidade ainda maior.
Porque, num átimo, a vida escorre silenciosamente entre sonhos, aventuras e despedidas.
