Termino a visita à obra entre poeira e material de demolição, já de saída, quando o mestre me olha fundo e pede se pode fazer uma pergunta. Imagino que seja algo relativo ao projeto, quando ele me sai com um:

– Me responda uma coisa, o que é este tal de Idadismo?

Lembro rapidamente que ele tem meu whatsapp e instagram, e costumo replicar os movimentos que faço parte no status. Entre eles o Coletivo Metamorfose da Vida e o Movimento Sociedade sem Idadismo. A pergunta, então, faz sentido. Começo a elaborar uma resposta que possa elucidar, de maneira prática, o que ele quis dizer. 

– É o preconceito contra idade. E logo acrescento, preconceito contra pessoas idosas e jovens.

O espanto dele à palavra preconceito contra jovem me faz perceber que não é um assunto muito falado. O etarismo é mais conhecido, sem dúvida. Vou falando de como se constroem essas ideias na infância, como vamos assimilando sem muito questionar. Dou exemplos de preconceitos mais discutidos na sociedade, e de como essas ideias vão formando conceitos e virando discriminações que precisam ser nomeadas para poder ser combatidas. 

Ele, não contente, me indaga de chofre: 

– E como saber quando passamos do limite? Quando algo é condenável ou não?

Pergunta delicada. Lembro de como aprendi esse delicado limite no campo do humor. Um humorista famoso sempre dizia que se pode fazer piada com gente poderosa, mas quando a piada machuca alguém, é preciso recuar. Eu posso não achar nada demais brincar que alguém é isso ou aquilo, mas quando minhas palavras ferem, estou agindo errado. Empatia, a palavra-chave. Se colocar no lugar do outro.

E veio então a pergunta mais fundamental da conversa: 

– Como delinear o limite do cuidado? 

Ele se referia ao discernimento de até onde se pode interferir na autonomia de uma pessoa idosa. Uma dúvida muito frequente em filhos com pais que começam a envelhecer. O amor e a atenção muitas vezes nos fazem querer proteger quem nos criou, e acabamos por retirar a sua independência sem perceber. O idadismo não mora só no desprezo. Mora também no excesso de proteção que apaga a história de quem viveu.

Como saber a linha entre a lucidez, a capacidade de autonomia e a necessidade real de intervenção? Confesso que não tenho todas as respostas para esse equilíbrio tão delicado. Respondi com minha experiência pessoal e com o muito que tenho aprendido nestes últimos anos. Respeito, empatia e afeto continuam sendo caminhos a percorrer com delicadeza. Imaginar o que gostaríamos para nós também.

Saí da obra um pouco mais convicta da necessidade destas trocas onde se ouve e se aprende enquanto se fala e se compartilha. E também saí sabendo que a pergunta dele era melhor do que qualquer resposta minha. 

One thought on “O que o mestre de obras me ensinou sobre idadismo”
  1. O cotidiano é riquíssimo em oportunidades! A gente precisa estar atento! Obrigada por compartilhar…

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