Parece uma pequena – e sutil – diferença entre chamar de idoso e pessoa idosa. O nosso companheiro Afonso Escosteguy aqui do Pensar Selvagem que o diga. Quando lançou as bases do Movimento Sociedade sem Idadismo, vem alertando para este fato. Idoso é genérico. E é.
Não existe um padrão único de envelhecimento. Ainda mais se pensarmos em uma sociedade tão desigual como a nossa. Não há como colocar no mesmo rótulo pessoas que trabalham em serviços braçais e/ou mal remunerados com pessoas que se beneficiaram de condições socioeconômicas mais privilegiadas desde cedo. Ou por muito tempo nas suas vidas.
Estes dias estava brincando com uma IA da vida e pedi uma caricatura minha com base no que sabia a meu respeito. Que não era pouco. A imagem foi surreal. Um homem jovem que nada me representava! E a resposta logo em seguida, até antes da minha reclamação:
Não tem nada a ver contigo…Porque há um descompasso estrutural entre o que você pediu e o que a ferramenta consegue fazer sozinha. A geração de imagem funciona por padrões médios. Quando o comando não ancora fortemente identidade, contexto e linguagem visual, ela recorre a estereótipos. Foi exatamente isso que aconteceu.
Ou seja, a admissão que a ferramenta – assim como todas – nada faz sozinha. Se não há particularidades, ela responde com padrões médios. O que, em última análise, quase sempre vai se referir à esterótipos.
Estereótipos são como “rótulos” ou ideias prontas que a sociedade cria sobre um grupo de pessoas, sem levar em conta as diferenças individuais. Eles generalizam características, comportamentos ou habilidades, o que pode ser injusto e limitante.
Exemplo envolvendo idosos:
Um estereótipo comum é pensar que toda pessoa idosa é “lenta, teimosa ou não sabe usar tecnologia”. Mas isso não é verdade: muitos idosos são ágeis, abertos a aprender e usam celulares, redes sociais ou programas de computador com facilidade. Esse rótulo ignora a experiência de vida, a sabedoria e a diversidade entre as pessoas mais velhas.
Fiz um teste pedindo três imagens de casais de 70 anos. A única diferença que assinalei era a condição financeira. E a IA gerou as imagens em destaque. Um casal de classe AA, um casal de classe média e um casal de classe pobre. Aparentemente condizentes com a sociedade e a realidade em que vivemos. Mas ainda assim genéricos.
Digamos que a gente desse nomes e profissões a cada um. Famílias mais afetuosas ou menos, o que independe de condições financeiras. Genéticas e escolhas de vida. Tudo isso transforma a vida de pessoas. As faz sair da generalidade e ter mais que um CPF, as faz ter personalidade. E isso influi em como suas vidas serão traçadas e inclusieva, na sua longevidade. Fosse diferente, milionários teriam maior probabilidade de viver mais. E nem sempre isso é realidade. Embora ajude bastante.
Assim como aprendi que na Arquitetura não se projeta para uma pessoa média, as políticas públicas e ações da sociedade não deveriam ser feitas para generalidades, e sim para pessoas.
Sigo pensando.
Embora caminhar pelas calçadas urbanas seja cada vez mais difícil e arriscado.

Temos que ir mandando e compartilhando este texto pelo mundo afora. Pois, isto é tudo verdadeiro….
Faz parte do trabalho de conscientização do movimento e do coletivo Metamorfose! Abraços
A imagem que fizeste é uma representação perfeita do que falo sobre “idoso” ser genérico. Ela retrata bem que diferenças socio-econômicas, bem como experiências de vida fazem cada pessoa ser uma individualidade a ser consiederada como tal. E isso só é possível, em termos de rótulo, quando usamos “pessoa idosa”, pois o foco está na “pessoa” e não na idade (idoso = quem tão somente completou 60 anos e daí para frente).
Agradeço a tua leitura atenta e a forma como tu trouxe essa reflexão. Concordo contigo que falar em pessoa idosa desloca o olhar para a pessoa antes da idade e abre espaço para reconhecer singularidades que o termo idoso muitas vezes acaba encobrindo. Quando colocamos a pessoa no centro, e não a sua idade apenas, também somos chamados a rever como pensamos políticas, espaços e cuidados. A palavra que usamos molda o modo como enxergamos e, no limite, o modo como agimos.