“…trepei numa roseira, quebrei um galho…
Ai, ai, me acode, senão eu caio…”

Parlenda* popular infantil

Aqui não tem roseiras, até porque quem subiria numa roseira?

Vamos falar de tombos, tombos de verdade, daqueles de dar vergonha, mas, mesmo assim, levantar e seguir em frente.

Já caí muitas vezes, desde jovem. Cheguei a ser apelidada de “Tombo”. Ainda hoje tenho joelhos ralados e cicatrizes das quedas. Além das marcas na alma deixadas pelos “tombos” da vida.

O primeiro de que me lembro foi na adolescência. Havia uma grande obra na Avenida Bento Gonçalves: estavam construindo o corredor exclusivo para ônibus, em Porto Alegre. Pois eu consegui cair em um dos buracos até quase os ombros. Fiquei conhecida como a Sereia da Bento, pois o buraco estava cheio de água da chuva. Vergonha foi pouca…

O segundo aconteceu quando eu estava com meu filho, ainda bebê, no colo. Caminhava olhando para ele quando consegui enfiar o pé em uma tampa de bueiro. Fiquei com uma perna lá dentro e a outra tentando me equilibrar para não derrubar a criança. Dessa vez não houve piadas, apenas aclamação por eu não ter deixado meu filho cair.

Outro de que me lembro, e que deixou marcas severas no joelho, foi caminhando nas proximidades do Parcão. Pisei em uma pedra mal fixada e, novamente, fiquei com uma perna presa em um buraco. Recebi a consideração das pessoas que passavam, mas também muita vergonha e dor.

E os tombos foram se aprimorando: um escorregão na descida da Borges, em frente ao edifício Sulacap, em um dia muito úmido; outra queda na frente do Hospital Fêmina, justamente no dia em que saiu minha aposentadoria. Escorreguei nas florezinhas roxas da calçada.

A partir de então fui percebendo que a agilidade, quase igual à dos gatos, foi diminuindo. Os tombos começaram a me levar ao chão, com direito a escoriações nos joelhos e nas mãos, usadas para me defender da queda.

Comecei a andar com mais cautela, prestando atenção ao solo, pois as calçadas são nossas piores inimigas. Então, um dia, durante minha caminhada na rua onde moro, uma saliência na calçada me levou ao chão. Fiquei estatelada. Foi aquele tombo de parar o trânsito, com pessoas tentando me ajudar e até oferecendo levar-me ao pronto-socorro.

Felizmente, depois de sentar e levantar lentamente, constatei que não havia nenhum osso quebrado. Mas a vergonha e a impotência se fizeram presentes diante de uma queda difícil de absorver, tanto física quanto emocionalmente.

Foram algumas semanas mancando, muita dor no joelho, gelo, fisioterapia e algum tempo até voltar a caminhar normalmente.

Depois vieram alguns tropeços, aqui e ali. Cuidado! Atenção! Caminhar mais devagar.

Até a última queda. Essa foi cinematográfica. Aconteceu no corredor de acesso à sala de aula de um dos meus netos. Tropecei em uma pequena saliência no chão e me estatelei.

Pessoas vieram me acudir, e eu não sabia se levantava, se chorava, se acalmava meus netos ou se simplesmente aceitava toda a atenção que me ofereciam.

Naquele momento percebi minha vulnerabilidade como pessoa idosa. O medo de haver quebrado algum osso, de precisar de imobilização, de repouso, de auxílio para realizar atividades básicas.

Levantei devagar, consegui ficar em pé. Saí mancando, mas consegui caminhar, com toda a dignidade que ainda me sobrava. Ao chegar em casa: gelo, pomada e remédio para a dor.

Fiquei na expectativa. Se a dor não passasse, se houvesse edema, iria ao traumatologista. No outro dia, a dor continuava, mas não houve edema nem imobilidade no pé atingido. Felizmente, eu havia escapado de mais uma queda!

Todas essas situações me levam a refletir sobre a vulnerabilidade que nos atinge ao longo dos anos, principalmente pelo medo de nos tornarmos dependentes ou acamados.

Nossa agilidade já não é a mesma, mas nossos sonhos continuam voando, assim como na música:

“É que a gente quer crescer e, quando cresce, quer voltar do início,
Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido…”

Era Uma Vez – Kell Smith

Grace Gomes é psicóloga e facilitadora de Biodança, escreve sobre situações do cotidiano e as emoções que encontra em sua atividade profissional.  

*Parlendas são versos infantis com rimas e ritmo, transmitidos pela tradição oral. Elas integram o folclore brasileiro e são amplamente utilizadas para ditar o ritmo de brincadeiras, jogos de mãos ou como fórmulas para “tirar sorte” entre as crianças.

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