
Ler é bom. Ler bons contos, melhor ainda. Eis o primor de livro que me deram: “Velhos”. Li numa tacada. E estou aqui para convencer vocês a lerem o livro de ALÊ MOTTA, carioca, arquiteta e contista de mão cheia.
São 30 contos curtos. É como os ingleses e americanos chamam de “short stories”.
O livro é de 2020. É da editora Reformatório. Não conhecia. Nem a autora tampouco. Mas vem indicada pelo grande Itamar Vieira Junior.
Linguagem seca, narrativa visceral que consegue ter humor na forma de escrever e no que fazem ou deixarem de fazer suas personagens.
Há histórias que são tristes, dramáticas, de sofrimentos, mas a autora consegue extrair humor de quase tudo.
A família não aguentava as maldades do avô. É morto. Inventam um assalto e uma luta corporal. Agora, a maldade que era só dele agora é de toda a família.
Preto e velho: “até agora ninguém me pediu desculpas”; “como iam saber que eu não era um marginal?”
Velho e gordo: quebrou a balanço, alguém gravou, viralizou. Pagou. Mas ganhou vivas e assobios, virou herói na zona.
Até de uma narrativa de um caso de Alzheimer, a autora tira humor.
Uma tentativa de suicídio tem estas frases:
“Preciso calcular o impulso para bater a cabeça no fundo. Dessa vez não posso falhar.”
Um conto digno de nota é “Passado” que lida com um segredo, ao final se sabe o que é: uma “porrada”.
A inexorabilidade da metamorfose da vida é tratada e vista assim pela personagem: “Diabos! Catarata é a constatação infalível da velhice”.
E uma das melhores é esta:
“Quero viver para acertar o bolão e receber uma visitinha dos meus filhos e meus netos”.
O humor do pai sobre o filho bandido “Sapão” tem cenas hilárias.
“Meus netos comem com os olhos grudados no celular”. É um conto mais sério tanto que a personagem diz que “vou tocar o terror na casa”.
E tem o golpe via celular. A velhinha esperta, se achando diz: “O patife levou meus três mil reais”.
Não deixe de ler, você vai gostar. É um livro para todas as idades, mas acho que as pessoas idosas vão gostar, algumas figuras vão odiar, é claro, porque vão se ver no espelho.
Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.


