
Depois da cirurgia de catarata, recuperei uma visão que eu já nem lembrava que tinha. As cores ficaram mais nítidas, os contornos mais definidos, a luz voltou a ter profundidade. Foi como se o mundo tivesse sido devolvido em alta resolução — e junto com ele, uma gratidão imensa.
Essa recuperação me levou a pensar nos outros sentidos. Naqueles que, ao longo da vida, vão se transformando, diminuindo, se alterando — muitas vezes sem que a gente perceba.
A pele, por exemplo. Houve um tempo em que eu atravessava o inverno com um vestido curto e não sentia frio. Hoje, posso me agasalhar o quanto for e ainda assim sentir frio. Em outros momentos, o calor se torna excessivo. O chuveiro que antes era confortável agora queima. A pele ficou mais sensível, mais reativa. As terminações nervosas respondem de outra forma. Não é ausência de sensação — é quase o contrário: um corpo mais exposto ao mundo.
A audição também mudou. Antes, a música alta era alegria, euforia, vitalidade. Hoje, cansa. Às vezes incomoda. Algumas palavras se perdem no ar. Surge o “o quê?”, o “fala mais alto”, enquanto o outro responde: “mas eu estou falando normal”. Alguns sons simplesmente desaparecem. Ouvir ficou diferente. E ouvir diferente muda também a forma de estar com o outro, de acompanhar conversas, de habitar o silêncio.
O paladar segue esse mesmo caminho sutil. A comida às vezes parece fria quando não está. O gosto fica menos definido. O sal some, os temperos perdem intensidade. As papilas gustativas vão se tornando menos sensíveis. Não é uma perda brusca, é um estranhamento cotidiano. E junto com ele, algo mais impactante: o engasgo. Com o tempo, a elasticidade da faringe diminui, e o corpo avisa. Aprendi a comer mais devagar. A respeitar o ritmo. A estar mais presente no ato de me alimentar.
E então, algo importante se revela. Nem tudo se perde.
O olfato permaneceu. O cheiro de terra molhada continua intacto. O perfume bom ainda desperta lembranças. Aromas de comida, de flores do campo, de tempos vividos seguem abrindo portas da memória. O olfato permanece como um fio sensível que liga o presente ao passado, o corpo às emoções, a vida às recordações.
Talvez envelhecer seja isso.
Não uma sucessão de perdas, mas uma reorganização dos sentidos. Quando algo diminui, outra coisa se aprofunda. Quando um sentido falha, a vida pede mais presença, mais cuidado, mais escuta.
Ver melhor me ensinou a agradecer.
Sentir mais frio me ensinou a cuidar.
Ouvir menos me ensinou a silenciar.
Comer mais devagar me ensinou a respeitar o tempo.
E cheirar a terra molhada me lembra, todos os dias, que sigo viva — profundamente viva.


