Agora somos NOLT. Nós quem, cara pálida?

Já venho lendo em redes sociais e aplicativos de mensagens um texto sobre uma dessas novas tendências, quase sempre com termos importados que caem nas graças de um problema real, mas que fica muitas vezes escamoteado, a velha dificuldade de lidar com a velhice real.

NOLT. New Older Living Trend. Nome limpo. Sonoridade moderna. Em bom português Nova Tendência de Viver a Velhice. Nova tendência para quem? Talvez só para alguns. Os escolhidos. Os que cabem no enquadramento publicitário.

O discurso é muito sedutor. Muitas pessoas acima dos 60 não se consideram velhas. Afinal são ativas, produtivas, conectadas. Estudam, viajam, reinventam carreiras, sorriem para a câmera, fazem do envelhecer uma performance permanente de entusiasmo. O tempo vira estética. A idade, um branding pessoal. Tudo muito coerente com a lógica do mercado que precisa transformar cada fase da vida em mercadoria.

O problema é o silêncio que esse discurso produz, o lugar onde não alcança. NOLT não mora na periferia sem saneamento. Não espera meses (ou anos) por uma consulta no SUS. Não escolhe qual conta vai pagar porque todas nem sempre dá. Não conhece a angústia de quem envelhece com o corpo cansado, trabalhando formal ou informalmente, equilibrando a sobrevivência com uma aposentadoria cada vez mais defasada. 

O envelhecer que vira tendência é sempre o envelhecer higienizado. Sem rugas demais. Sem dependência. Sem fragilidade. Um envelhecer que não incomoda. Que não exige política pública. Que não convoca orçamento, planejamento urbano, saúde coletiva, cuidado continuado. Apenas consumo.

Não é uma crítica a quem vive uma velhice ativa e cheia de possibilidades. Isso é maravilhosidade quando acontece com verdade. A perversidade está em vender essa exceção como regra. Em sugerir que o problema do envelhecer é semântico, quando ele é estrutural. Em trocar a palavra velho por uma sigla em inglês e achar que isso resolve décadas de negligência.

O mercado adora rótulos. Adolescente. Jovem adulto. Gerações empilhadas como prateleiras. Agora, NOLT. Tudo precisa caber em um segmento. Tudo precisa ser vendável. Tudo precisa parecer novo, mesmo quando o velho problema continua intacto.

Envelhecer no Brasil não é tendência. É resistência cotidiana. É sobreviver em cidades que não acolhem. É lidar com um estado que chega tarde. É viver numa sociedade que renega o velho. Alguém que não produz mais e não consome mais. É carregar histórias, corpos marcados, memórias e cansaços. 

Quem realmente se importa com a velhice não cria nomes bonitos. Cria calçadas seguras. Transporte acessível. Moradia digna. Saúde que funcione. Renda que permita escolher mais do que apenas sobreviver. O resto é vitrine, com boa iluminação e pouca coerência.

A pergunta que fica, incômoda e necessária, é simples: estamos dispostos a enfrentar o envelhecer real, focando na nossa individualidade, ou vamos continuar embalando ilusões em inglês para não olhar de frente o que exige coragem coletiva? 


Este texto é baseado em reflexões pessoais e debates no WhatsApp do MSI – Movimento Sociedade Sem Idadismo

Imagem produzida por IA 

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